Extratos do Livro Interno de Huangdi

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LIVRO I

1. Tratado sobre a Verdade Natural nos Tempos Antigos

O Imperador Amarelo foi dotado de talentos divinos, nos tempos antigos em que nasceu: na primeira infância já sabia falar, muito jovem ainda era rápido de entendimento e sagacidade, em adulto foi sincero e compreensivo e quando atingiu a perfeição ascendeu ao Céu.

Uma vez, o Imperador Amarelo dirigiu-se a T’ien Shih, o mestre divinamente inspirado, nos seguintes termos:

– Ouvi dizer que nos tempos antigos as pessoas viviam mais de um século e mesmo assim permaneciam ativas e não se tornavam decrépitas nas suas atividades. Hoje em dia, porém, as pessoas só vivem metade desses anos e mesmo assim tomam-se decrépitas e débeis. É por que o
Mundo muda de geração para geração? Ou será por que a espécie humana negligencia as leis da Natureza?

E Ch’i Po respondeu:

– Antigamente, essas pessoas que compreendiam o Tao [o caminho do autodesenvolvimento] moldavam-se de acordo com o Yin e o Yang [os dois princípios da Natureza] e viviam em harmonia com as artes da adivinhação.

“Havia temperança no comer e no beber. As suas horas de levantar e recolher eram regulares e não desordenadas e ao acaso. Graças a isso, os antigos conservavam os seus corpos unidos às suas almas, a fim de cumprirem por completo o período de vida que lhes estava destinado,
contando cem anos antes do passamento”.

“Hoje em dia, as pessoas não são assim; utilizam o vinho como bebida e adotam a temeridade e a negligência como comportamento habitual.
Entram na câmara do amor em estado de embriaguez; as paixões exaurem-lhes as forças vitais; o ardor dos desejos malbarata-lhes a verdadeira essência; não são hábeis na regulação da sua vitalidade.
Devotam toda a atenção ao divertimento dos seus espíritos, desviando-se assim das alegrias da longa vida. Levantam-se e deitam-se sem regularidade. Por tais razões só chegam à metade de cem anos e degeneram.

“Na Antigüidade mais remota, os ensinamentos dos sábios eram seguidos pelos que se encontravam abaixo deles. Os sábios diziam que a fraqueza, as influências insalubres e os ventos nocivos deviam ser evitados em ocasiões específicas. Sentiam-se tranqüilamente
satisfeitos no nada e a verdadeira força vital acompanhava-os sempre;
preservavam dentro de si o vigor vital primitivo. Assim, como podia a doença acometê-los?”.

“Reprimiam a vontade e reduziam os desejos; os seus corações estavam em paz e sem qualquer medo, os seus corpos labutavam e, contudo, não sentiam fadiga”.

“O seu espírito respeitava a harmonia e a obediência, estava tudo de acordo com os seus desejos e conseguiam o que quer que desejassem.
Achavam excelente qualquer espécie de comida e qualquer espécie de vestuário os satisfazia. Sentiam-se felizes em todas as circunstâncias. Para eles, não importava que um homem ocupasse na vida uma posição elevada ou inferior. A homens assim se pode chamar puros
de coração. Não há desejo capaz de tentar os olhos destas pessoas puras, e a sua mente não pode ser desencaminhada pelos excessos nem pelo mal.

“Numa sociedade assim, quer os homens sejam sensatos, quer idiotas; quer virtuosos, quer maus, não têm medo de nada, estão em harmonia com o tao, o Caminho Certo. Por isso, os antigos viviam mais de um século e permaneciam ativos e sem se tomarem decrépitos, porque a sua virtude era perfeita e nada jamais a punha em perigo”.

O imperador perguntou:

– Quando as pessoas envelhecem, não podem procriar filhos. É por terem exaurido a sua força na depravação ou por sorte natural?

Ch’i Po respondeu:

– Quando uma menina tem sete anos as emanações dos seus rins tornam-se abundantes, começa a mudar os dentes e o cabelo fica mais comprido.
Quando perfaz o décimo – quarto ano começa a menstruar, pode engravidar e o movimento do pulso da grande artéria é forte. A menstruação ocorre em períodos regulares, e assim a jovem pode dar à luz uma criança.

“Quando a mulher atinge a idade de vinte e um anos, as emanações dos seus rins são regulares, o último dente saiu e está completamente desenvolvida. Quando a mulher atinge a idade de vinte e oito anos, os seus músculos e ossos são fortes, o seu cabelo atingiu o comprimento máximo e o seu corpo está vigoroso e fecundo”.

“Quando a mulher atinge a idade de trinta e cinco anos, o pulso que indica a região da ‘Luz Solar’ deteriora-se, o rosto começa a enrrugar-se e o cabelo a cair. Quando atinge a idade de quarenta e dois anos, o pulso das três regiões do Yang deteriora-se na parte superior do corpo, o rosto tem rugas e o cabelo começa a embranquecer”.

“Quando atinge a idade de quarenta e nove anos, já não pode engravidar e a circulação do pulso da grande artéria diminuiu. A menstruação acaba, as portas da menstruação deixam de estar abertas; o corpo deteriora-se e a mulher deixa de poder gerar filhos”.

“Quando um rapaz tem oito anos, as emanações dos seus testículos (rins) estão completamente desenvolvidas; o cabelo cresce mais e começa a mudar os dentes. Quando tem dezesseis anos, as emanações dos seus testículos tornam-se abundantes e começa a segregar sêmen. Tem uma abundância de sêmen que procura expelir, e, se nessa altura o elemento masculino e o elemento feminino se unem em harmonia, pode ser concebida uma criança”.

“Na idade de vinte e quatro anos, as emanações dos testículos são regulares, músculos e ossos estão firmes e fortes, nasceu o último dente e o homem atingiu a altura máxima. Aos trinta e dois anos, músculos e ossos estão no apogeu, a carne é saudável e o homem é
robusto e fecundo”.

“Na idade de quarenta anos, as emanações dos testículos diminuem, o cabelo começa a cair e os dentes a apodrecer. Aos quarenta e oito anos, o vigor masculino está reduzido ou esgotado, aparecem rugas no rosto e o cabelo das têmporas embranquece. Aos cinqüenta e seis anos, a força do fígado deteriora-se, os músculos deixam de funcionar devidamente, a secreção de sêmen esgota-se, a vitalidade diminui, os testículos deterioram-se e a força física do homem chega ao fim. Aos sessenta e quatro anos, perde os dentes e o cabelo”.

“Os rins do homem regulam a água que recebe e armazena a secreção das cinco vísceras e dos seis intestinos (1). Quando as vísceras estão abundantemente cheias, encontram-se aptas a segregar; mas quando, neste estágio, as cinco vísceras estão secas, os músculos e os ossos
declinam, as secreções reprodutoras exaurem-se e, por isso, o cabelo do homem encanece nas fontes, o corpo torna-se-lhe pesado, a postura deixa de ser ereta e ele se torna incapaz de procriar.”

O imperador perguntou:

– Mas há homens que, apesar de velhos em anos, geram filhos. Como é isso possível?

Ch’i Po respondeu:

– Trata-se de homens cujo limite natural de idade é mais elevado. O vigor do seu pulso permanece ativo e há um excedente de secreção dos seus testículos. No entanto, se tiverem filhos, os varões não excederão os sessenta e quatro anos, e as filhas não ultrapassarão os
quarenta e nove, pois nessa altura a essência do Céu e da Terra estará esgotada.

O imperador perguntou:

– Os que seguem o Tao, o Caminho Certo e atingem assim a idade de cerca de cem anos, podem gerar filhos?

Ch’i Po respondeu:

– Os que seguem o Tao, o Caminho Certo, podem escapar à velhice e conservar o corpo em perfeitas condições. Embora velhos em anos, continuam capazes de gerar filhos.

Huang Ti disse:

– Ouvi dizer que em tempos antigos houve os chamados Homens Espirituais, que dominaram o Universo e controlaram o Yin e o Yang. Respiravam a essência da vida, eram independentes por preservarem o espírito e os seus músculos e a sua carne permaneciam imutáveis. Podiam, portanto, gozar uma longa vida, pois não há fim para o Céu e a Terra. Tudo isso resultava da sua vida de harmonia com o Tao, o Caminho Certo.

“Nos tempos medievos existiram os Sapientes, que preservavam a virtude e defendiam (infalivelmente) o Tao, o Caminho Certo. Viviam de acordo com o Yin e o Yang e em harmonia com as quatro estações. Afastavam -se deste mundo e renunciavam à vida mundana, poupavam as energias e preservavam o espírito intacto. Viajavam por todo o Universo e eram capazes de ver e ouvir para além dos oito espaços distantes. Graças a tudo isso, aumentavam e fortaleciam a sua vida e, por fim, atingiam o estágio do Homem Espiritual”.

“Sucederam-lhes os Sábios, que alcançaram a harmonia com o Céu e a Terra e respeitaram estritamente as leis dos oito ventos. Eram capazes de conciliar os seus desejos com os assuntos mundanos, e o seu coração não conhecia o ódio nem a cólera. Não desejavam separar as suas atividades das atividades do Mundo e conseguiam ser indiferentes ao hábito. Não forçavam excessivamente o corpo no trabalho físico nem a mente em meditações extenuantes. Não se preocupavam com coisa alguma, consideravam fundamentais a felicidade e a paz interiores e a satisfação a mais elevada das realizações. Nada podia molestar-lhes o
corpo nem malbaratar-lhes as faculdades mentais. Assim, conseguiam chegar à idade de cem anos ou mais”.

“Sucederam-lhes os Homens de Excelente Virtude, que obedeceram às regras do Universo e imitaram o Sol e a Lua, além de descobrirem a disposição das estrelas. Podiam prever o funcionamento do Yin e do Yang e obedecer-lhe, e aprenderam a distinguir as quatro estações. Respeitaram os tempos antigos e tentaram manter-se em harmonia com o
Tao. Fazendo-o, aumentaram a duração da sua vida, até uma idade avançada.”

2. Grande Tratado sobre a Harmonia da Atmosfera das Quatro Estações com o Espírito Humano

Os três meses da Primavera chamam-se o período do princípio e do desenvolvimento da vida. As exalações do Céu e da Terra estão preparadas para gerar; assim, tudo se desenvolve e floresce.

Após uma noite de sono, as pessoas devem levantar-se de manhã cedo, caminhar vivamente pelo pátio, soltar o cabelo e tornar mais lentos os movimentos do corpo. Procedendo assim podem realizar o seu desejo de viver saudavelmente.

Durante este período, o corpo deve ser encorajado a viver e não a ser morto; devemos ceder-lhe livremente e não lhe tirar nada; devemos recompensá-lo e não castigá-lo.

Tudo isto está em harmonia com a exalação da Primavera e tudo isto é o método de proteção da nossa vida.

Os que desrespeitam as leis da Primavera serão punidos com mal do fígado. A esses o Verão seguinte reservará arrepios e mudanças más.
Assim, terão pouco com que apoiar o seu desenvolvimento no Verão.

Os três meses de Verão chamam-se o período do crescimento luxuriante. As exalações do Céu e da Terra misturam-se e são benéficas. Está tudo em flor e começa a dar fruto.

Após uma noite de sono, as pessoas devem levantar-se de manhã cedo.
Não se devem cansar durante o dia nem consentir que o seu espírito se irrite.

Devem permitir que as melhores partes do seu corpo e do seu espírito se desenvolvam; devem permitir que o seu hálito se comunique com o mundo exterior e devem proceder como se amassem tudo quanto existe exteriormente.

Tudo isto está em harmonia com a atmosfera do Verão e tudo isto é o método de proteção do nosso desenvolvimento.

Os que desrespeitam as leis do Verão serão punidos com mal do coração.
A esses o Outono trará febres intermitentes. Assim, terão pouco apoio para as colheitas outonais e sofrerão de doença grave no solstício do Inverno.

Os três meses de Outono chamam-se o período de tranqüilidade da nossa conduta. A atmosfera do Céu é intensa e a atmosfera da Terra é desanuviada.

As pessoas devem deitar-se cedo e levantar-se cedo, com o cantar do galo. Devem ter o espírito em paz, a fim de minimizarem a punição do Outono. Alma e espírito devem unir-se para que a exalação do Outono seja tranqüila, e para conservarem os pulmões puros as pessoas não devem dar expansão aos seus desejos.

Tudo isto está em harmonia com a atmosfera e tudo isto é o método de proteção da nossa colheita.

Os que desrespeitarem as leis do Outono serão punidos com um mal pulmonar. A esses o Inverno trará indigestão e diarréia e, assim, terão pouco apoio para o armazenamento do Inverno.

Os três meses de Inverno chamam-se o período de fechar e armazenar. A água gela e a terra estala e abre fendas. Não devemos perturbar o nosso Yang (2).

As pessoas devem deitar-se cedo e levantar-se tarde, esperar que o Sol nasça. Devem reprimir e ocultar os seus desejos, como se não tivessem nenhum objetivo interior, como se estivessem em tudo satisfeitas. As pessoas devem tentar fugir ao frio e procurar calor, não devem transpirar pela pele e devem privar-se da exalação do frio.

Tudo isto está em harmonia com a atmosfera do Inverno e é o método de proteção do nosso armazenamento.

Os que desrespeitarem as leis do Inverno sofrerão de um mal dos rins (e Testículos); a eles a Primavera trará impotência e produzirão pouco.

O hálito do Céu é puro e leve. O Céu mantém sempre a sua virtude primitiva e, por isso, nunca se desmorona. Se o Céu se abrisse por completo, o Sol e a Lua nunca seriam luminosos, o mal chegaria durante este período de vazio, a atmosfera de Yang fechar-se-ia e a Terra perderia a sua luminosidade, nuvens e nevoeiro não poderiam sofrer mudanças, e, conseqüentemente, o orvalho branco não cairia e a circulação dos elementos naturais não se comunicaria à vida de tudo na Criação. A esta situação chamar-se-ia “não – doadora”, e, como conseqüência da sua “não – doação”, toda a vegetação pereceria. Além disso, o ar nocivo não desapareceria, vento e chuva não seriam harmoniosos, não cairia orvalho branco e a vegetação jamais voltaria a florescer. Haveria sempre ventos violentos e chuvaradas súbitas, e o Céu, a Terra e as quatro estações seriam incapazes de se proteger entre si, perderiam o Tao e não tardariam a ser destruídas.

Os sábios respeitavam as leis da natureza, e, por isso, o seu corpo estava isento de doenças estranhas; não perdiam nada do que tinham recebido da Natureza e o seu espírito de vida nunca se esgotava.

Aqueles que não procedem de conformidade com o hálito da Primavera não trarão vida à região do Yang inferior A atmosfera do seu fígado modificar-lhes-á a constituição.

Aqueles que não procedem de conformidade com a atmosfera do Verão não desenvolverão o seu Yang superior. A atmosfera do seu coração tornar-se-á vazia.

Aqueles que não procedem de conformidade com a atmosfera do Outono não colherão o seu Yin superior A atmosfera dos seus pulmões ficará bloqueada, isolada do seu espaço de combustão inferior.

Aqueles que não procedem de conformidade com a atmosfera do Inverno não abastecerão o seu Yin inferior A atmosfera dos seus testículos (rins) ficará isolada e diminuída.

Destarte, as interações das quatro estações e as interações do Yin e do Yang, os dois princípios da Natureza, são os alicerces de tudo quanto existe na Criação. Daí que os sábios tenham concebido e desenvolvido o seu Yang na Primavera e no Verão e concebido e desenvolvido o seu Yin no Outono e no Inverno, a fim de respeitarem a regra das regras; e assim, juntamente com tudo o mais da Criação, os sábios mantiveram-se no limiar da vida e do desenvolvimento.

Os que se rebelam contra as regras básicas do Universo cortam as próprias raízes e destroem a sua verdadeira personalidade. O Yin e o Yang – os dois princípios da Natureza – e as quatro estações são o princípio e o fim de tudo e são igualmente a causa da vida e da morte. Os que desobedecem às leis do Universo dão origem a calamidades e provações, enquanto os que respeitam as leis do Universo permanecem isentos de doenças perigosas, pois a eles foi concedido o Tao, o Caminho Certo.

O Tao era praticado pelos sábios e admirado pelos ignorantes. A obediência às leis do Yin e do Yang significa vida; a desobediência significa morte. Os obedientes dominarão, enquanto os desobedientes viverão em desordem e confusão. Tudo quanto é contrário à harmonia com a Natureza é desobediência e equivale à rebelião contra a Natureza.

Por isso, os sábios não tratavam aqueles que já estavam doentes e instruíam aqueles que ainda não estavam doentes. Não queriam guiar aqueles que já eram rebeldes; guiavam aqueles que ainda não eram rebeldes. E este o significado de toda a discussão precedente.
Administrar remédios a doenças que já se desenvolveram e reprimir revoltas que já eclodiram é comparável ao comportamento daquelas pessoas que começam a abrir um poço depois de terem sede, ou daquelas que começam a fundir armas depois de já se terem lançado na batalha.
Não chegarão estas ações demasiado tarde?

LIVRO II

6. Tratado sobre a Separação e o Encontro do Yin e do Yang

O Imperador Amarelo disse:

– Diz-se que o Céu foi criado pelo Yang (o princípio masculino da luz e da vida) e que a Terra foi criada pelo Yin (o princípio feminino das trevas e da morte). Diz-se que o Sol representa o Yang e que a Lua representa o Yin. Os meses grandes e os meses pequenos somados deram um total de trezentos e sessenta dias, que perfizeram um ano, e a humanidade viveu sempre de acordo com este sistema. É verdade que, hoje em dia, os três elementos do Yang já não correspondem ao sistema antigo do Yin e do Yang?

Ch’i Po respondeu:

– O Yin e o Yang podem-se somar até totalizarem o número dez; este pode ser excedido e significar cem, ou ser calculado para ser mil e os mil serem excedidos e significarem dez mil – isto é: inclui tudo. Dez mil é tanto que não pode ser igualado por nenhum número, e o mesmo acontece quanto à sua importância.

“Tudo quanto existe na Criação está coberto pelo Céu e é suportado pela Terra. Quando nada ainda brotou, a Terra chama-se: o lugar onde o Yin reside, e também é conhecida por o Yin no Yin. O Yang fornece o que e vertical, enquanto o Yin, a Terra, atua como regulador do Yang”.

“Plantar e procriar estão de acordo com a Primavera; crescer e cultivar estão de acordo com o Verão; colher na colheita está de acordo com o Outono, e o armazenamento da colheita está de acordo com o Inverno. Se, por hábito, as pessoas descuidarem de respeitar estas normas, o trabalho do Céu e da Terra e das quatro estações será impedido. Se o Yin e o Yang mudarem, as pessoas mudarão igualmente, e o seu destino poderá então ser prefigurado”.

O Imperador Amarelo disse:

– Gostaria de ouvir mais coisas acerca da separação e do encontro do Yin e do Yang.

Ch’i Po respondeu:

– Os sábios antigos viravam-se para o Sul e fixavam-se. Ao que quer que ficasse à sua frente chamava-se espaço brilhante, e ao que quer que ficava atrás deles chamava-se a grande via ou o Yang Maior

“O Yang Maior está localizado no seio do solo e nele está o Yin Menor. Quando este Yin Menor ascende acima da Terra, fica sob a influência do Yang Maior”.

“O Yang Maior é a base da existência do princípio ao fim. O Yin Maior é o elo de ligação entre a vida e a ‘Porta da Vida'(11) e assim torna-se evidente que no Yin também há um Yang. Está dentro do corpo e acima do corpo e chama-se espaço brilhante. Mas se esta expansão brilhante envia os seus raios para baixo, então passa a chamar-se Yin
Maior Sabe-se que a frente do Yin Maior é iluminada pela ‘Luz Solar’.

“A ‘Luz Solar’ é a base de tudo, permeia tudo e é, por isso, conhecida por Yang no Yin. Se o Yin se torna exteriormente aparente, passa a ser conhecido por Yang Menor”.

“O Yang Menor é a base dos orifícios do Yin, aos quais leva vida, e por isso se chama Yang Menor no Yin.

“É esta, então, a separação e o encontro dos três Yang. O Yang Maior atua como fator inicial, a ‘Luz Solar’ atua como fator de cobertura e o Yang Menor atua como eixo ou ponto central”.

“As três principais artérias não devem desencontrar-se umas das outras; devem ser atraídas umas para as outras, e quando o seu pulso não soa superficial o seu nome é um (pulso) Yang.”

O Imperador Amarelo disse:

– Gostaria de saber mais coisas acerca dos três Yin.

Ch’i Po respondeu:

– No exterior há Yang, mas no interior é o Yin que está ativo. O Yin está ativo no interior e é efetivo em baixo, onde o seu nome é Yin Maior.

“O Yin Maior é a base de tudo quanto está oculto e é misterioso e vazio, e assim chama-se Yin no Yin. A retaguarda do Yin Maior chama-se Yin Menor”.

“O Yin Menor é a origem de tudo quando flui rapidamente e de todas as nascentes e chama-se Yin Menor no Yin”.

“A frente do Yin Menor chama-se ‘Yin Absoluto’. Este Yin é a base da grandeza e da honestidade. Onde o Yin se interrompe há Yang e nesse ponto chama-se Yin no Yin Absoluto.

“Aqui temos a separação e o encontro dos três Yin. O Yin Maior atua como fator inicial, o Yin Absoluto atua como fator de cobertura e o Yin Menor atua como eixo ou ponto central”.

“As três principais artérias não devem desencontrar-se umas das outras; devem ser atraídas umas para as outras, e quando o seu pulso não soa profundo o seu nome é um (pulso) Yin”.

“Os climas do Yin e do Yang alternam e os seus climas acumulados funcionam como uma unidade completa. O espírito interior e a forma física exterior aperfeiçoam-se mutuamente.”

LIVRO VIII

26. Tratado sobre as Oito Principais Manifestações Divinas

O Imperador Amarelo perguntou:

– A fim de se utilizarem os serviços da agulha, há que respeitar certas regras e métodos. Qual é, hoje em dia, a natureza dessas regras e desses métodos?

Ch’i Po respondeu:

– As regras são as do Céu e os métodos são os da Terra. A fim de combiná-los, segue-se o sistema das luzes celestes.

O imperador declarou:

– Gostaria de ter informações completas a esse respeito.

Ch’i Po explicou:

– Todas as leis da acupuntura se devem orientar pelo Sol, pela Luz, pelos planetas, pelas estrelas e pelas quatro estações. Estes são os oito fatores da atmosfera e quando a atmosfera está estabelecida pode-se aplicar a acupuntura.

“Assim, quando o tempo está tépido e o sol claro e brilhante, o sangue do homem flui suavemente e as suas secreções protegem-lhe o vigor e mantêm-no volátil. Por isso o sangue flui facilmente e o vigor serenamente”.

“Quando o tempo está frio e o sol obscurecido, o sangue do homem coagula e não flui, e o seu vigor até aí protegido debilita-se e perece”.

“Quando a Lua começa a aumentar, o sangue e o vigor animam-se, as essências recebem novos incentivos e protegem a exalação da vida que começa a ativar-se. Quando a Lua está completamente cheia, há abundância de sangue e vigor no homem e os músculos e a carne são
firmes e fortes. Quando a Lua está completamente vazia, os músculos e a carne definham, as artérias e as veias ficam vazias e o vigor até aí protegido parte, deixando o corpo abandonado. Portanto, deve-se proceder de acordo com o tempo e as estações a fim de se ter sangue e vigor completamente adaptados e harmonizados e, conseqüentemente, quando o tempo está frio não se deve aplicar a acupuntura. Mas quando o dia está quente não há que ter nenhuma hesitação quanto à conveniência de aplicá-la.

“Na altura da lua nova não se deve drenar, e quando a Lua está cheia não se deve suplementar. Quando a Lua está vazia até o fim não se podem curar doenças. Por isso, deve-se consultar o tempo e as estações e harmonizar com eles o tratamento. De acordo com as normas do Céu, os períodos de abundância e insuficiência influenciam as luzes celestes,
determinam as suas posições e regulam-nas e, portanto, devem ter-se em consideração esses períodos”.

“Assim, quando o Sol e a Lua ainda são recentes e se pratica a drenagem, isso provoca insuficiência das vísceras. Quando a Lua está cheia e se suplementa o sangue e o vigor, estes se alastrarão e transbordarão, haverá uma obstrução de sangue dentro das veias e
dir-se-á que elas estão sobrecarregadas”.

“Empreender uma cura quando a Lua está completamente vazia causa desordem e confusão na conduta regular. O Yin e o Yang entrarão em conflito (dentro do corpo) e não se poderá distinguir o que está certo e correto do que está errado e é prejudicial. Desencadeia-se
deterioração, há insuficiência no exterior e desordem e confusão no corpo, e surgem excessos e danos”.

O imperador perguntou:

– Por que devem ser tomados em consideração os planetas, as estrelas e a temperatura dos oito fatores principais?

Ch’i Po respondeu:

– Os planetas e as estrelas devem ser tomados em consideração porque determinam o curso do Sol e da Lua; a atmosfera dos oito principais fatores deve ser tomada em consideração porque eles se relacionam com as insuficiências e as emanações prejudiciais dos oito ventos e, em última análise, das estações. Entre as quatro estações pode-se distinguir Primavera, Outono, Inverno e Verão, e a exalação de cada estação tem o seu lugar especifico e são necessárias todas as estações para harmonizar a exalação. Mediante a temperatura regular dos oito principais fatores, podem-se evitar as insuficiências e as emanações prejudiciais, assim como as transgressões.

“Quando a fraqueza do corpo coincide com a insuficiência da exalação, as duas insuficiências enganam-se mutuamente e a sua força penetra nos ossos e, sucessivamente, ataca as cinco vísceras”.

“Mas se os peritos no tratamento médico tomarem em consideração o tempo do tratamento, não causarão qualquer dano. Diz-se: Os que não temem certas espécies de atmosfera são ignorantes.”

O imperador exclamou:

– Esse método de obedecer às estrelas e aos planetas é muito excelente! Mas também estou desejoso de ouvir falar dos métodos do passado.

Ch’i Po respondeu:

– Nos métodos do passado há uma presciência da agulha aplicada às artérias; os exames desse tempo chegaram aos nossos dias: havia uma presciência do fato de que os dias eram frios e quentes, de que a Lua podia estar vazia ou cheia e de que se deviam tomar em consideração a
leveza e o peso da atmosfera e o efeito da sua aglutinação com respeito ao corpo. Pela observação destes pormenores, obtém-se confirmação. Examinar o que é secreto e profundo equivale a examinar o corpo e a exalação, mas o sangue e as essências vitais não são aparentes no exterior do corpo. Só os peritos na arte do exame têm conhecimento da decadência ou do florescimento do corpo.

Tomam em consideração se o dia é frio ou quente e se a Lua está vazia ou cheia, consideram as quatro estações e se a atmosfera é leve ou pesada, e consideram também como estes fatores se associam entre si, a sua fusão e harmonia.

“O médico deve começar sempre por observar estas coisas, não obstante a falta de sintomas no exterior do corpo. Por isso se diz: Deve-se investigar e examinar o que é profundo e misterioso. Perpetrados ao infinito, estes métodos podem ser transmitidos à posteridade, o que explica os extraordinários modos de procedimento do médico. Em virtude de os sintomas não se revelarem exteriormente, nem toda a gente é capaz de vê-los”.

“Acerca dos que são capazes de ver sem necessidade de sintomas e de saborear quando não há sabores, diz-se que utilizam profundo e misterioso conhecimento e se assemelham aos divinamente inspirados”.

“Que significa ser fraco e afetado por influências maléficas? É a atmosfera dos oito fatores principais que pode provocar fraqueza e más influências”.

“O que está certo e o que é prejudicial? Quando o corpo utiliza toda a sua força, a transpiração flui livremente através dos poros abertos e encontra as minúsculas, mas enfraquecedoras influências que afetam o homem. Assim, desconhecem-se as suas circunstâncias e não se é capaz de ver a sua forma”.

“O médico de categoria superior ajuda antes do primeiro desabrochar da doença. Deve começar por examinar as três regiões do corpo e por definir a atmosfera das nove subdivisões, para que estejam em inteira harmonia e nada possa ser destruído. Depois, então, ajuda. Por isso se chama médico de categoria superior”.

“O médico de categoria inferior começa a ajudar quando a doença já se desenvolveu, ajuda quando a destruição já se desencadeou. E como a sua ajuda chega quando a doença já está desenvolvida, diz-se que ele é ignorante. As três divisões do corpo e as nove subdivisões contendem então entre si e a doença será destrutiva”.

“Quando se sabe a localização da doença, sabe-se, através do exame, que as doenças das três regiões do corpo e as nove subdivisões estão localizadas dentro do pulso e pode-se assim tratá-las e curá-las. Diz-se, por isso, que se deve estar atento às portas do pulso. Ignorar estas circunstâncias é ver aparências enganosas “.

O imperador disse:

– Gostaria de ser elucidado acerca do que acontece quando a suplementação e a drenagem não atingem os seus objetivos.

Ch’i Po respondeu:

– Para drenar deve-se usar fang, o estado ou método certo. Fang significa que se deve drenar quando as condições atmosféricas são favoráveis, que se deve aplicar esse método quando a Lua está cheia, quando o dia está quente e quando o corpo se encontra em ordem.
Deve-se aplicá-lo quando a respiração está sendo inalada. Insere-se então a agulha e repete-se quando a respiração é de novo inalada. Mas deve-se girar a agulha, procedimento que se repete quando a respiração está sendo exalada. Depois retira-se lentamente.

“Diz-se, portanto: A fim de drenar, deve-se usar fang, o estado adequado, em relação à respiração e ao seu procedimento. A fim de suplementar, deve-se usar yüan, arredondar. Que é este arredondar?
Refere-se ao procedimento, e este procedimento significa transmitir e substituir”.

“Para picar deve-se penetrar repetidamente na corrente sangüínea; utiliza-se o momento da inalação para empurrar a agulha. Assim, fang, o estado adequado, e yüan, o arredondamento, dizem-nos quando não se deve aplicar a agulha. Deste modo, para nutrir e cuidar do espírito e da mente, deve-se ter consciência das aparências do corpo: se é gordo ou magro e se o sangue, as essências vitais, a constituição e a exalação estão saudáveis ou em deterioração. A constituição e a exalação determinam o espírito e a energia do homem e não se deve descurar a sua nutrição e o seu cuidado”.

O imperador exclamou:

– Que extraordinário raciocínio! Pôr em harmonia o corpo do homem com o Yin e o Yang, os dois princípios da Natureza, assim como com as quatro estações. Quem, senão o mestre, poderia interpretar assim os seus ecos de insuficiência e repleção, a sua reação às mais sutis influências? No entanto, distingue e descreve o corpo e o espírito.
Que significa hsing, o corpo, e que significa shên, o espírito? Desejo que me explique tudo.

Ch’i Po redargüiu:

– Permiti que discuta hsing, o corpo. Que é o corpo? Considera-se o corpo como contendo o que é sutil e minúsculo e atribui-se-lhe a responsabilidade pelas suas doenças, para cuja descoberta ele é investigado. Examinando-o e ponderando acerca da sua conduta regular, muito se torna aparente; mas colocar a mão defronte dele não revela os fatos do caso. Portanto, chama-se hsing ao corpo, a aparência física.

O imperador perguntou:

– E que significa shên, o espírito?

Ch’i Po respondeu:

– Permiti que discuta shên, o espírito. O que é o espírito? O espírito não pode ser escutado com o ouvido. O olho deve ser brilhante de percepção e o coração deve ser aberto e atento para que o espírito se revele subitamente através da própria consciência de cada um. Não se pode exprimir pela boca; só o coração sabe exprimir tudo quanto pode ser observado. Se se presta muita atenção, pode-se ficar a saber subitamente, mas também se pode perder de repente esse saber. Mas shên, o espírito, toma-se claro para o homem como se o vento tivesse varrido as nuvens. Por isso se fala dele como do espírito.

“As três seções do corpo e as nove subdivisões são os elementos primitivos. O tratado das nove agulhas por si só não é suficiente.”

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(1) As cinco vísceras são o coração, os pulmões, o fígado, os rins e o estômago. Os seis intestinos são a vesícula biliar, o estômago, o intestino grosso, o intestino delgado, a bexiga e o San Chiao, ou espaço de combustão triplo (triplo aquecedor); a parte do corpo humano acima da extremidade superior do estômago é o espaço de combustão superior, cuja função é receber e não expelir; a parte principal do estômago chama-se espaço de combustão médio, cuja função é digerir alimentos, e o espaço de combustão inferior é o órgão de eliminação, cuja função é expelir e não receber.

(2) No Inverno, que é a estação do Yin, o Yang está adormecido.

(11) Diz-se que a “Porta da Vida” se situa entre os rins e é o órgão onde o sangue se transforma em sêmen.

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Comentários

  1. nisio mafra Lopes  Março 13, 2015

    Muito bom um conhecimento que todos deveriam saber e praticar !

    responder

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